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Confesso que estava com saudades de compartilhar conhecimento por aqui. Já faz quase dois meses desde a minha última publicação. Esse intervalo aconteceu por um bom motivo: uma rotina intensa de atendimentos, novos projetos e o início de mais uma pós-graduação, uma experiência que tem ampliado ainda mais meu olhar sobre o comportamento humano, as neurociências e a reabilitação cognitiva.

Ao concluir minha graduação em Psicologia, no final do século XX, falar sobre emoções, sentimentos e o funcionamento cerebral ainda era um grande desafio. Embora atualmente tenhamos avançado significativamente na compreensão do cérebro humano, a ciência continua demonstrando que ainda existem muitos aspectos do sistema nervoso que permanecem sendo objeto de investigação. Afinal, compreender o cérebro é compreender uma das estruturas mais complexas do universo conhecido.

Quem me conhece sabe da minha paixão pelo Cérebro. Na verdade, sou apaixonada pelo encéfalo como um todo, já que o cérebro representa apenas uma de suas estruturas.

Essa paixão começou ainda no segundo ano da graduação, durante as aulas de Neuroanatomia, quando tive a oportunidade de estudar um cérebro humano. Foi um momento marcante na minha formação. Impressionava-me perceber que pequenas regiões, muitas vezes identificadas por detalhes mínimos durante as dissecações anatômicas, eram responsáveis por funções essenciais como linguagem, memória, atenção, movimento, emoções e comportamento.

Nas décadas seguintes, a ciência avançou de forma extraordinária. A chamada "Década do Cérebro", proclamada entre 1990 e 1999, impulsionou investimentos internacionais em pesquisas sobre o sistema nervoso e abriu caminho para descobertas que transformaram nossa compreensão sobre aprendizagem, desenvolvimento infantil, saúde mental, envelhecimento, neuroplasticidade e processos cognitivos.

Foi nesse contexto que as Neurociências ganharam ainda mais força como área interdisciplinar dedicada ao estudo do sistema nervoso, tanto em seu desenvolvimento típico quanto nas diferentes condições neurológicas e neuropsiquiátricas. Atualmente, sabemos que o funcionamento cerebral resulta da interação entre fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais, desde o período fetal até o envelhecimento avançado.

Um dos conceitos mais fascinantes revelados pelas pesquisas é a neuroplasticidade: a capacidade do cérebro de reorganizar suas conexões ao longo da vida em resposta às experiências, à aprendizagem e às intervenções terapêuticas. Esse conhecimento reforça que o cérebro permanece em constante transformação, tornando possível desenvolver novas habilidades, recuperar funções comprometidas e fortalecer processos cognitivos por meio de estimulação adequada e intervenções baseadas em evidências.

Ao longo da minha formação, a Psicologia ainda enfrentava inúmeros estigmas. Era comum ouvir que apenas pessoas com transtornos mentais graves precisavam de acompanhamento psicológico ou que bastava "ter força de vontade" para superar dificuldades emocionais. Felizmente, esse cenário vem mudando. Hoje compreendemos que cuidar da saúde mental é um componente essencial da promoção da saúde, da qualidade de vida e do bem-estar.

Lembro-me com carinho de uma frase repetida por muitos professores durante a graduação: "A Psicologia será uma das profissões mais necessárias do futuro." E, de fato, essa previsão se confirmou.

O crescimento das demandas relacionadas à ansiedade, depressão, estresse crônico, transtornos do neurodesenvolvimento, dificuldades de aprendizagem e sofrimento emocional demonstra a necessidade de uma assistência cada vez mais qualificada, integrada e interdisciplinar.

Nesse cenário, nenhuma ciência trabalha de forma isolada. Psicologia, Neurociências, Psiquiatria, Neurologia, Fonoaudiologia, Terapia Ocupacional, Psicopedagogia, Educação e diversas outras áreas dialogam continuamente para compreender o ser humano em sua complexidade. O trabalho em equipe permite avaliações mais precisas e intervenções mais eficazes, sempre respeitando as necessidades individuais de cada pessoa.

Sob a perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), compreendemos que pensamentos, emoções, comportamentos e respostas fisiológicas estão profundamente interligados. Quando identificamos padrões cognitivos disfuncionais e desenvolvemos estratégias de enfrentamento mais adaptativas, promovemos mudanças que repercutem tanto no funcionamento psicológico quanto na qualidade de vida.

Da mesma forma, os programas de estimulação e reabilitação cognitiva, fundamentados em evidências científicas, demonstram resultados importantes na promoção das funções executivas, atenção, memória, linguagem, raciocínio e aprendizagem, favorecendo maior autonomia funcional em diferentes fases do desenvolvimento humano.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os transtornos mentais e neurológicos representam uma das principais causas de incapacidade em todo o mundo. Entre as condições que mais impactam a qualidade de vida estão a depressão, o transtorno bipolar, os transtornos relacionados ao uso de álcool, a esquizofrenia e o transtorno obsessivo-compulsivo, reforçando a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e do acesso a tratamentos baseados em evidências científicas.

Cuidar da saúde mental não significa apenas tratar doenças. Significa investir em prevenção, desenvolver habilidades emocionais, fortalecer a resiliência, aprender novas estratégias para lidar com os desafios cotidianos e reconhecer que pedir ajuda é um ato de autocuidado, e não de fragilidade.

A ciência tem mostrado, de forma consistente, que quanto mais cedo buscamos apoio profissional, maiores são as possibilidades de promover qualidade de vida, bem-estar e desenvolvimento saudável.

Invista em sua saúde mental. Seu cérebro agradece. E sua vida também!

Referências

• Quevedo, J.; Izquierdo, I. Neurobiologia dos Transtornos Psiquiátricos. Porto Alegre: Artmed, 2020.

• Organização Mundial da Saúde (OMS). Relatórios sobre Saúde Mental e Transtornos Mentais.

• Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. A contribuição da Neurociência na prática do Neuropsicopedagogo.

• Beck, J. S. Terapia Cognitivo-Comportamental: Teoria e Prática. Artmed.