Como as crianças e os adolescentes podem se beneficiar e atingir os objetivos propostos a partir da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), se a sua cognição emocional ainda se encontra em desenvolvimento?

As habilidades de reconhecer, compreender e gerenciar as próprias emoções — e as dos outros — são desenvolvidas por regiões cerebrais que se conectam de forma complexa e continuam amadurecendo até o início da fase adulta. Muitas das competências que envolvem a cognição emocional estão intimamente relacionadas ao córtex pré-frontal, responsável pelo controle inibitório, comportamento social, regulação emocional, tomada de decisão, organização e planejamento — ou seja, pelas chamadas funções executivas.

Precisamos lembrar que, na infância e na adolescência, essas estruturas neurobiológicas ainda estão em pleno desenvolvimento. Por isso, muitos dos comportamentos apresentados nessa fase são reflexos diretos do ambiente físico, social e familiar no qual o jovem está inserido.

O papel do ambiente e a quebra de ciclos

Dentro dessa perspectiva, todos os contextos nos quais essas crianças ou jovens transitam também precisam ser trabalhados no processo terapêutico. Isso se torna ainda mais evidente quando observamos a continuidade de crenças tradicionais transgeracionais, que se estendem pelas famílias durante anos e que, muitas vezes, geram interpretações e comportamentos disfuncionais sobre a realidade.

É exatamente nesses momentos que se faz necessário conscientizar sobre a importância de quebrar ciclos repetitivos, sempre respeitando a história familiar e atuando rigorosamente dentro da ética profissional. Sempre sugiro o filme "Red: Crescer é uma fera", pois demonstra muito esse contexto.

Como a TCC atua na prática com crianças e adolescentes?

Para alcançar os objetivos terapêuticos de acordo com a necessidade singular de cada criança ou adolescente, utilizamos um conjunto de estratégias fundamentadas e baseadas em evidências:

  • Psicoeducação: Explicar de forma acessível, com atividades práticas, como o cérebro, as emoções e os comportamentos funcionam.

  • Recursos concretos e lúdicos: Ferramentas didáticas que estimulam o processamento sensorial e ajudam a criança a explorar o mundo ao seu redor, valorizando a sua aptidão e habilidade desenvolvidas

  • Intervenções comportamentais e automonitoramento: Técnicas para identificar gatilhos e modificar reações e comportamentos disfuncionais.

  • Orientação e treinamento parental: O monitoramento e o engajamento da família são pilares indispensáveis para a sustentação dos ganhos terapêuticos.

  • Envolvimento do contexto escolar: A parceria com o corpo docente e a equipe pedagógica é fundamental, especialmente nos casos que envolvem transtornos do neurodesenvolvimento. Alinhar estratégias comportamentais e preditivas com a escola garante a generalização das habilidades cognitivas e emocionais desenvolvidas em consultório para o ambiente acadêmico.

Tanto a infância quanto a adolescência são fases ricas em descobertas, que precisam ser exploradas de forma funcional, criativa e ativa.

Quando as crianças e os jovens se sentem parte ativa de suas próprias transformações, conseguimos ressignificar pensamentos disfuncionais antes mesmo que eles se consolidem como crenças nucleares rígidas. Através da reestruturação cognitiva e do manejo prático, nós os conduzimos à quebra de ciclos irrealistas que geram sofrimento, promovendo uma trajetória de desenvolvimento muito mais saudável e funcional.

Referências: BECK, Judith S. Terapia cognitivo-comportamental: teoria e prática. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2021.

FRIEDBERG, Robert D.; MCCLURE, Jessica M.; GARCIA, Jennifer K. Técnicas de TCC para Crianças e Adolescentes. Porto Alegre: Artmed, 2011.

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